Entrevista com o psicólogo Mário Figueirêdo

Por que as pessoas devem tanto ? – Entrevista com o psicólogo Mário Figueirêdo

Nossa entrevista hoje é com o Professor Mário Figueirêdo.

Mário é mestre em psicologia da saúde, pela UFES – Universidade Federal do Espírito Santo, professor universitário, profissional do serviço público de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura Municipal de Governador Valadares, MG.

A entrevista foi conduzida por Lélio Braga Calhau, promotor de justiça do MP-MG, mestre em Direito pela UGF-RJ, graduado em Psicologia e coordenador do programa Educação Financeira para Todos (EFPT).

Entrevista.

Lélio – Professor Mário, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o percentual de famílias que relataram ter dívidas, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro alcançou 62,2% em dezembro de 2017. É normal uma sociedade estar tão endividada ?

As pessoas são intensamente estimuladas a consumir bens e serviços, seja como estilo de vida, ou mesmo como modelo de felicidade e bem estar. A regulação do consumo em função dos recursos que se dispõe é fundamental para evitar o endividamento crítico. Portanto, nesse sentido, o consumo inconsequente é um comportamento disfuncional, que gera consequências nocivas ao indivíduo e, por extensão, para toda sociedade. No caso da população brasileira, os dados indicam que grande parcela do país têm sérias dificuldades com isso.

Lélio – As pessoas estão adoecendo por conta do elevado consumismo existente na sociedade atual ?

Somando-se a massiva publicidade para o consumo com a baixa capacidade de regulação de impulso e dificuldades de planejamento, o indivíduo destrói sua vida financeira. E ainda assim, não consegue mudar seu comportamento. Importante frisar que para controlar o comportamento compulsivo, não basta instruções a serem seguidas, pois mesmo sabendo o que precisa fazer, a pessoa não consegue. O comportamento compulsivo ou o impulsivo é um padrão de resposta condicionada, onde a gratificação tem que ser imediata, e seu adiamento não é possível. A grosso modo, torna-se uma espécie de “vício”, onde o sujeito não consegue controlar.

Lélio – O que uma família pode fazer quando notar que um de seus parentes possui um transtorno envolvendo o consumismo ?

Quando comprar torna -se destrutivo à vida do sujeito e à de sua família e, mesmo tendo consciência disso, recebendo orientações técnicas de organização das finanças, e ainda ele não consegue mudar, tal comportamento pode caracterizar como um transtorno compulsivo, passível de um programa de tratamento, que incluiria psicoterapia e até mesmo atenção psiquiátrica.

Lélio – Como o psicólogo pode auxiliar uma pessoa que sofre com o consumo irracional e irrefletido a lidar com esse problema ?

Como referido, o consumo compulsivo é um padrão condicionado de comportamento, que envolve o histórico de desenvolvimento psicológico do sujeito, incluindo suas crenças, seus valores, afetividade, suas sensibilidades, suas características de interações sociais, sua auto estima, etc. Ou seja, diversos elementos que compõem o universo subjetivo do indivíduo, que podem ser analisados e reorganizados num processo de psicoterapia.

Lélio – Como saber se um comunismo exagerado é um transtorno ou apenas um desvio de comportamento ?

Cada sujeito tem sua maneira de viver e buscar seu bem estar, seu jeito de ser feliz. A importância do nível de consumo varia para cada indivíduo, varia em cada sociedade. Desfrutar dos bens e serviços que temos à disposição, das maravilhas tecnológicas, para tornar a vida mais confortável, interessante e divertida é uma atitude razoável, sensata. O problema surge quando consumir deixa de ter essa finalidade, e passa a ter a função, por exemplo, de compensar frustrações e comprar reconhecimento. Nesse caso, o que a princípio é bom, torna-se ruim, sofrido e, tantas vezes, desesperador.

Lélio  – Muito obrigado pela entrevista !